Já que não estou nem aí se ele percebe ou não minhas celulites e estrias, desfilo pelada e tranquila enquanto como uma caixa de amanditas.
Ele arregala os olhos: o que essa louca tá fazendo pelada no meio da sala sendo que a gente ainda nem se beijou?
Ele pede pra usar o banheiro, talvez pra conferir o bafo ou a cor da cueca. E eu me vejo na típica situação que qualquer mulher louca adoraria: sozinha, com sua carteira e seu celular.
Tô nem aí de saber da sua vida. A quantidade de recadinhos femininos no seu celular ou de canhotos suspeitos no seu talão de cheques têm a mesma importância pra mim que a quantidade de carrapatos no cachorro do meu vizinho.
Ignoro qualquer pista e continuo a devorar minhas amanditas, isso sim é um assunto importante.
Se ele vai ligar amanhã? Não sei, não quero saber, e não tenho raiva de quem sabe. Não tenho raiva de ninguém. Não tenho raiva das moças que já passaram pelo seu corpo, não quero degolar as moças que talvez ainda passem e tampouco me chatearia pensar que muitas ainda passarão.
Não importa se você vai ficar meia hora ou uma hora inteira, não importa se o homem que vai sair do banheir gosta mais ou menos de mim, ou por inteiro. Nada me importa. A não ser o desejo de subir em cima de você e experimentar de novo aquele movimento meio ponto e vírgula que você faz. Não sei explicar.
Não lembro o nome de ninguém da sua família, não quero conhecer seus amigos, não preciso que você me abrace depois, e não faço questão de ser a mulher da sua vida. O que me importa mesmo, e isso sim mais do que minhas amanditas, é que você tem o dito cujo meio torto, de uma tortura que encaixa em um lugar que eu nem conhecia. Talvez eu fosse virgem de cantinho antes de te conhecer. Você me preenche e me cavoca como ninguém.
Não tenho medo de parecer vulgar caso você me queira de quatro, não tenho medo de ficar barriguda caso eu vá por cima. Não tenho medo de ficar com cara de idiota ou de gritar muito alto. Não tenho medo de nada, afinal a gente só tem medo do que a gente ama.
Se me der sono, durmo, se me der vontade de falar um palavrão alto, falo. Se me der vontade de ir embora, desço do carro.
E o mais fantástico de tudo é que já que eu estou tão a vontade, já que meu cérebro louco não está vivendo nem no passado nem no futuro e apenas no presente do seu corpo quentinho e cheiroso e já que nada em mim dói, porque nada em mim sonha...eu nunca senti tanto prazer em minha vida.
Será que não amar ninguém e amanditas são o segredo da felicidade? Tati Bernardi.
14.12.09
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